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Entrevista com Alessandro Potter: o fotógrafo e a imagem

  A imagem é uma das formas de linguagem mais penetrantes e imediatas que se conhece. Em particular a fotografia é um elemento que chega aos olhos e comunica, por vezes, em primeira instância. Com motivação na busca do entendimento do significado da imagem e tudo o que a compõe em “forma e conteúdo”, entrevistamos Alessandro Potter, atualmente fotógrafo institucional pela prefeitura da cidade de João Pessoa, ele tem em seu currículo também experiência com fotojornalismo e uma série de trabalhos autorais de relevância. Durante a conversa que tivemos na tarde do dia 13 de outubro deste ano, no Espaço Cultural José Lins do Rego, ao nos responder a respeito de suas experiências profissionais e opiniões acerca da sua área de atuação, Alessandro nos revelou de forma bastante informativa e real, com sua perspectiva de produtor de enquadramento e imagem, os papéis comunicativos e sociais que ela pode assumir.

Janela Discursiva: O que lhe motivou a iniciar um trabalho como fotógrafo?
Alessandro Potter: Minha relação com a fotografia surgiu em 2006, de uma maneira muito espontânea. Eu comecei a fotografar quando entrei para graduação em publicidade e propaganda, e até então eu nunca tinha tido uma câmera fotográfica, eu “paguei” a disciplina de fotografia, me estimulei, e aí comprei uma câmera analógica e comecei a fotografar. Normalmente os objetos de interesse, eram os da rua mesmo, eu pegava a câmera e ia pro centro (da cidade) principalmente, gostava muito de fotografar no centro, lá eu descobria vários personagens, descobria uma arquitetura nova, vários pontos que até então não observava, e como eu saía de casa pra fotografar, eu estava muito mais atento a esses pequenos detalhes que iam surgindo no centro da cidade, fui descobrindo a fotografia, aprendendo a fotografar, e comecei a trabalhar com fotografia profissionalmente mesmo em 2010.

Janela Discursiva: O que você tem a dizer a respeito do apelo da imagem na mídia?
Alessandro Potter: Eu acho que o jornalismo tem passado por alguns problemas, no sentido de que parece que estar perdendo a credibilidade. Eu não acho que o problema seja só da imagem em si, eu acho que a imagem tem o seu papel, tem a sua força, o recorte fotográfico vai determinar muito sobre isso, mas se você trabalha pra jornal, se você recebe uma demanda, você tem que cumpri-la, você aceitou essa condição, assinou um contrato, de trinta em trinta dias o jornal lhe paga, então eu acho que quem não quer entrar nesse meio realmente, tem que procurar outra forma de ganhar a vida, porque todo jornal vai ter suas inclinações políticas, vai ter as suas demandas específicas, e o fotógrafo tá ali pra favorecer com que isso aconteça, pra favorecer com que aquela linguagem, que já tá preestabelecida, de cima, ela corra bem.







Janela Discursiva: Como foi para você a realização do seu trabalho autoral no Terreiro de Mãe Penha?
Alessandro Potter: Bem, essa experiência, para mim, foi ótima, não só pelo resultado, porque eu gosto do resultado das imagens, mas eu acho que ela foi melhor no sentido de conhecimento mesmo, pessoal. Eu fui a convite de Artur Maia, na época a gente fazia graduação juntos, Artur também era estudante de ciências sociais e ele foi pra lá por demanda do curso, e eu fui sem saber mesmo, de nada, porque nunca tinha pisado num terreiro na vida. Já tinha vontade de fotografar esse tema, mas nunca tinha tido oportunidade. Confesso que me bateu um bocado de medo, o processo durou algumas horas, eu acho que quatro horas talvez, dentro daquela sala, e até conseguir me soltar, pra começar a fotografar, demorou um pouco, porque era uma experiência que eu nunca tinha tido. Eu acredito muito nessas religiões, e eu vi que o que estava acontecendo ali, de fato, tinha uma carga de energia muito forte, eu senti aquilo, e eu não sabia muito bem como me mover, fiquei um pouco assustado no começo, mas depois eu consegui me soltar mais, me abrir àquilo, consegui perceber que não era um coisa ruim, e depois comecei a fotografar, não me movi tanto, a maioria das fotos são todas (tiradas) do mesmo lugar, mas foi uma experiência de muito aprendizado.


Janela Discursiva: De que maneira se dá a concepção dos seus projetos autorais?
Alessandro Potter: Eu não percebo que eu escolho determinado tema, e vou busca-lo até conseguir fotografar, eu sinto que são esses encontros mesmo que acontecem, do tema comigo. Tem um trabalho, que eu gostei muito de fazer, que foi ótimo também para mim, como engrandecimento pessoal, que foi o meu projeto final do curso de fotojornalismo que eu fiz em Barcelona. Eu estava um pouco desesperado, eu precisava definir um tema, do meu projeto final, e eu tinha acabado de chegar em Barcelona, não conhecia ninguém, não conhecia nada, meu professor era meio linha dura, então todo dia, na aula, ele cobrava muito sobre essa questão do tema, para começar a alinhar as coisas, definir o sistema de projeto. E aí teve um dia, numa situação específica, uma mulher chegou para mim e disse assim: “tu é brasileiro, né? ”, e eu disse: “sou”, e a gente começou a conversar e ela me perguntou: “o que você tá fazendo aqui? ”, eu disse: cheguei recentemente, vim fazer um curso de fotojornalismo, e eu tô meio aperreado porque eu quero trabalhar um tema que seja social, mas eu não sei o quê, aqui em Barcelona, não sei onde buscar esses temas. Ela disse “eu vivo aqui há quase dez anos, sou manicure, e grande parte dos meus clientes são transexuais brasileiros, e se você quiser trabalhar um tema social forte, eu posso te apresentar alguns deles”, e eu fiz esse projeto, foi o meu projeto final e foi ótimo para mim. As coisas parecem que vem ao meu encontro, não é só essa busca, eu estou muito aberto às coisas que acontecem na minha vida, e quando aparece um tema interessante eu vou lá e boto para a frente.
Janela Discursiva: Como foi se readaptar à realidade de fotógrafo no Brasil?
Alessandro Potter: Eu acho que tem uma questão que é fundamental e que faz toda diferença, que é a questão da segurança. Na Europa você pode andar livremente com uma câmera pendurada no pescoço, e eu acho que isso traz muito mais liberdade e muito mais vontade também, de desenvolver a fotografia na rua, e eu acredito que as melhores temáticas estão na rua. Diferente daqui (Brasil), que é perigoso, que a gente não pode andar com uma câmera no pescoço, aqui é complicado andar pela cidade, explorar a cidade, portar uma câmera na mão e fotografar livremente. Sinto que aqui a gente não tem tanto essa liberdade como fora, e isso é que mais me faz falta, na verdade, eu lembro que lá eu praticamente não saía sem câmera, porque eu sabia que existia a possibilidade de fotografar e que eu ia voltar para casa com a câmera, e aqui isso não acontece, eu me vejo receoso de sair com meu equipamento, que é de trabalho, eu não posso perder meu equipamento, senão eu não trabalho. Isso me dá um pouco de tristeza, de não pode sair na rua com uma câmera.


Janela Discursiva: Você segue atualmente alguma rotina no seu trabalho de fotógrafo profissional?
Alessandro Potter: Eu sou fotógrafo do prefeito, e eu sou o único fotógrafo, então eu estou à disposição, eu não tenho feriado, final de semana, eu posso trabalhar todos os dias de manhã, de tarde e de noite. Então, hoje em dia tá um pouco complicado pra mim, eu realmente estou voltado ao trabalho. Eu vim aqui para fazer campanha política, ano passado, e aí, estou nessa posição e bem concentrado nisso agora. Estou tentando me organizar pra concluir esses projetos que eu falei, que eu comecei lá fora, e pretendo terminá-los aqui, mas essa demanda de trabalho é muito alta pra mim, e às vezes falta um pouco de paciência mesmo, pra fotografar, buscar a câmera e fotografar no meio da rua. Você passa seis, sete horas com uma câmera pendurada no pescoço, equipamento pesa, teleobjetiva, flash... chega uma hora no final do dia que você já está um pouco saturado. Porque viver de fotografia é muito duro. Se você tem outras atividades, e também fotografa, eu acho que a fotografia vem de uma forma muito prazerosa, mas se você realmente ganha o pão com fotografia, e se você se submete a fazer fotografia institucional, como eu faço por exemplo, pra poder pagar as contas, no final do dia você vai tá cansado.


Janela Discursiva: Qual seu maior desejo enquanto profissional?

Alessandro Potter: Eu penso que a carreira de fotógrafo, é uma carreira muito longa, a gente vê que os grandes nomes da fotografia, realmente se tornaram grandes nomes depois de muitas décadas de trabalho. E eu me sentiria muito feliz se um dia eu pudesse ser uma referência na fotografia, com trabalhos publicados que sejam de valor, que tragam uma reflexão pra sociedade, não vou dizer que tragam mudanças porque eu acho que mudanças sociais demandam muita coisa, e eu acho que a fotografia é um pé, um ponto que pode favorecer à isso, então eu acho que se o meu trabalho enquanto fotógrafo favorecer a esses questionamentos,  esses debates, discussões, para mudanças, que tragam uma vida melhor pra todo mundo, eu já me sinto feliz com isso, se eu conseguir ser esse fotógrafo que tem um trabalho coeso, e que faça as pessoas refletirem sobre aquele discurso que eu for retratar.

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