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Crônica: Dia ruim, atraso e ônibus errado

Dia ruim, atraso e ônibus errado


                     Hoje parecia que estava tudo dando errado. Meu carro resolveu não ligar, o ônibus decidiu atrasar, o que me faria ir andando até o bairro vizinho, ou seja, quase 15 minutos a pé às nove horas da manhã. Eu já estava 20 minutos atrasada para o trabalho, cansada e com dor de cabeça, além de suada e provavelmente despenteada. Sabia que meu chefe brigaria comigo, mas isso não era o que mais me preocupava agora, mesmo que perder o emprego em uma crise como a que o país está enfrentando seja horrível, eu estava, na verdade, extremamente desgastada com todas as exigências que minha vida me trazia.
                    Eu não precisava ser uma única mulher, mas umas cinco no mínimo, uma que trabalha, outra que estuda, outra que ajuda os pais e os irmãos, outra que é uma boa amiga, uma sociável e tinha que até mesmo achar tempo para paquerar. O último sem sombra de dúvidas era o mais importante, pelo menos para minhas tias e as amigas delas, talvez também para minha mãe e minha avó, e algumas amigas. Em algum momento na minha rotina tinha que, também, alimentar meu cachorro e é claro dá um pouco de atenção a ele.
                      Mas, voltando a minha manhã, minhas pernas já doíam o ônibus parecia não querer chegar, o relógio parecia ter decidido andar mais rápido, o que, é claro, ele não faria nos momentos em que tudo o que eu mais queria era a hora de deitar e dormir. Minha cabeça começava a pensar no número de trabalhos da universidade que tinha para fazer e entregar em menos de uma semana, pensava nos trabalhos em grupo e nos membros que insistentemente achavam que você vivia apenas para realizar aquele trabalho e que precisava responder instantaneamente, sem falar dos que não lembravam de suas obrigações.
                     Parava um segundo e pensava no amigo que havia deixado sem respostas ontem à noite e na amiga que esperava insistentemente por um conselho sobre sua conturbada vida amorosa e palavras de consolo para superar o seu crush que não a merecia. Pensava sobre o cara que havia ignorado e que provavelmente tornaria a puxar assunto, o que era no mínimo entediante.
                     O ônibus chegava e eu ia entendendo o que era o tal surto de depressão que atacava o século XXI, entendia o que era a tão citada fadiga mental. Pensava em como era bom que aquilo ainda não tivesse me atingido, até porque não havia períodos disponíveis para a psicóloga e talvez não houvesse dinheiro, a crise está grande. Lembrava de que na correria não havia escovado os dentes e agradecia a Deus por encontrar um chiclete na bolsa. Em pé enquanto me equilibrava entre os bancos do ônibus, olhava pela janela e o via entrar na rua errada. E lá se ia no mínimo mais uma hora de atraso, lógico, que nem mesmo o ônibus havia acertado.


 Rebeca Pontes 

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