Casa de acolhimento em João Pessoa sofre com pouca verba para realização de atividades
“Não adianta dá alimento se não formamos eles e os inserimos na sociedade”, disse Márcio de Paula, ex coordenador do Centro Pop
Com o passar dos anos e de uma maneira parcialmente assustadora, é inegável o aumento do número de pessoas que vivem em situação de rua, por esse motivo algumas medidas foram tomadas, como a criação de casas de acolhimento. A exemplo delas temos o Centro Pop (Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua) localizado na Rua Treze de Maio, no Centro. Constitui-se em uma unidade de referência da PSE de Média Complexidade, de natureza pública e estatal, cujo serviço é ofertado para pessoas que utilizam as ruas como espaço de moradia e/ou sobrevivência. Segundo informações postadas no site da prefeitura de João Pessoa: “A unidade deve representar espaço de referência para o convívio grupal, social e o desenvolvimento de relações de solidariedade, afetividade e respeito. Na atenção ofertada no Serviço Especializado para Pessoas em Situação de Rua, deve-se proporcionar vivências para o alcance da autonomia e estimular, além disso, a organização, a mobilização e a participação social”, mas a realidade não é bem essa.
Na última quarta-feira (01), nossa equipe esteve no Centro e conversamos com servidores e beneficiários. Lá encontramos uma realidade não tão condizente com o que a casa se compromete a fazer. Em conversa com uma das servidoras e educadoras do Centro, ela nos contou sobre a precariedade da verba destinada as atividades. Também falou um pouco acerca do que é ofertado aos acolhidos. “Aqui disponibilizamos locais para que eles tomem banho e lavem suas roupas, damos roupas, inclusive aceitamos doações. Temos oficinas de percussão e grupo de mulheres, além do dia da beleza que é organizado por mim. Disponibilizamos materiais para que eles façam arte, e acompanhamento psicológico. Mas é muito ruim, porque muitas dessas atividades realizamos sem patrocínio, temos que tirar o dinheiro do nosso bolso”, disse Ângela Lima.

Dia da beleza.
Segundo Ângela, são acolhidas aproximadamente 45 pessoas, 30 homens e 15 mulheres, por dia, que recebem café da manhã, almoço e jantar no fim da tarde e um local seguro para descanso. Ainda na quarta-feira conhecemos Sérgio, 44 anos, que há 30 anos mora nas ruas. Ele nos falou um pouco sobre o tratamento recebido no Centro e seus servidores: “aqui eles nos dão amor, cuidam, até quando alguém faz coisa errada, arruma briga, eles ajudam. Aqui estamos seguros, a noite nas ruas não, eles fazem o possível para nos ajudar em tudo”. Quando questionado sobre o preconceito, ele relatou que sofre muito com isso. “Um dia eu estava ali, na Lagoa, deitado no gramado descansando e um policial se aproximou de mim com um cassetete pronto para me bater”.

Sérgio
Sergio é técnico de manutenção de computador, trabalha como vigia durante a madrugada “Eu tenho 4 filhas, eu sustento minhas filhas, todos os meses dou pensão a elas, tudo que eu tenho vai para elas. Eu não quero que elas vivam o que eu vivo. Elas estudam e vivem com as mães”. Sergio relatou também o que lhe levou a morar nas ruas “Meu pai casou com 14 mulheres, na décima quarta eu não aguentei mais. Ele fazia filhos e ela queria que eu trabalhasse para ela, ela me explorava muito, um dia eu não aguentei mais, ou eu saía de casa ou eu faria alguma loucura”.
O grande problema encontrado no centro é a falta de cuidado com a inserção dos beneficiários à sociedade. “Não adianta dar alimento se não formamos eles e os inserimos na sociedade”, disse Márcio de Paula, ex-coordenador do Centro Pop. “Se não os formamos e os profissionalizamos, eles precisarão eternamente de assistência e esse não é nosso objetivo”. Como esperar que essas mudanças e melhorias aconteçam se não existe investimento da prefeitura em educação? Nos deparamos com essa pergunta de forma intensa. “A verba que recebemos dá apenas para o essencial”, disse Ângela.
Diante dessa perspectiva é inegável que o Centro é de extrema importância para a sociedade, entretanto, é preciso o investimento e o cuidado necessário, “Tem muita gente boa e inteligente aqui. Outro dia fizeram uma maquete de uma roda gigante, ela girava por meio de uma bateria e acendia luzes. Eles são inteligentes, apenas não tem apoio necessário”, disse Ângela. “Não era para existir morador de rua, se existe é porque alguma coisa está errada. Acham que estamos nas ruas porque somos vagabundos”, disse Jean, outro beneficiário. “É preciso criar caminhos, não podemos fechar portas”, disse Márcio. “Nós precisamos de ajuda, ou não vamos conseguir”.
O Centro Pop funciona de segunda a sexta das 8 às 17 horas, localizado na Rua Treze de Maio, 508, no bairro do Centro. Recebe visitas e aceita doações de roupas, e estão realizando uma campanha arrecadando produtos de higiene pessoal, para mais informações contatar a produção da Janela Discursiva.




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